Impacto do ensino à distância

Teresa Pessoa - O Ensino Online

Reflexões em tempo de confinamento


O ensino online e a aprendizagem online têm estado presentes nas dinâmicas pedagógicas contemporâneas nas universidades. Desde há alguns anos. Não é um tema novo nem uma prática só de hoje! O ensino a distância tem também já a sua história que tem sido protagonizada pelas Universidades Abertas, mas de que há registos de boas práticas em várias Universidades Clássicas. Do que hoje se vem falando, e não se ouvia, é de ensino remoto que traduz, na maioria dos casos, práticas de ensino tradicionais mediadas pela tecnologia e, esta, apropriada, muitas vezes, de forma pouco amadurecida em termos de inovação pedagógica.

Mas as vantagens do ensino online são muitas que poderão passar, entre outras, pelo conforto do espaço e do tempo que o professor pode escolher para o concretizar e o aluno para o receber, pela rentabilização das potencialidades da tecnologia no desenho de coreografias didáticas de excelência, pelo acesso à informação em suportes diversos, pela construção de uma relação pedagógica com proximidade, pela construção ativa do conhecimento por parte dos alunos e sua publicação, etc.

As desvantagens poderão advir somente do seu mau uso embora nada substitua a comunicação presencial e, como sabemos, a avaliação presencial.

Os estudantes, embora sejam eles os grandes ‘experts’ do ensino a distância, têm-se queixado da falta de interação, da velocidade e quantidade de matéria dada pelos professores e, sobretudo, da falta do tempo que acontece nas avaliações.


Como eles próprios referem: “mais trabalhos para fazer “, “a pressão e o facto dos colegas não colaborarem”, “Excesso de trabalhos”, “frequências com o tempo muito limitado, e é muito difícil concluir o teste com o tempo dado pelos docentes”.

A gestão do tempo tem sido, assim, uma das grandes dificuldades e uma ameaça aos resultados académicos no pensar dos estudantes. Dizem os próprios que os bons estudantes têm sido os mais prejudicados por quererem cumprir de forma crítica e refletida a construção do conhecimento. O ensino online bem desenhado, desenvolvido e implementado pode, porém, ajudar a construir uma participação ativa e uma cidadania digital mais consciente e crítica por parte de quem decide aprender. É importante, todavia, que haja o tempo e esse espaço – comunidades de investigação mediadas pela tecnologia - de reflexão e colaboração para que alunos e professores pensem no gesto educativo com inovação e, mesmo, em colaboração. Estes são caminhos que hoje a tecnologia – o online - facilita e potencia e, assim, acrescenta valor(es) ao desenvolvimento profissional.


Professora Associada da Faculdade de Psicologia e de Ciências Educação da

Universidade de Coimbra


João Assunção

A resiliência da Academia e a desejada antiga normalidade


Desde março de 2020, as comunidades académicas viram-se obrigadas a uma mudança abrupta de paradigma. O combate à pandemia de Covid-19 exigiu, no ensino superior português, uma transição digital repentina, não antecipada e indesejada. Por reunir estas características, aquela transição veio tornar-se prejudicial para a formação dos milhares de estudantes de todo o país, que ficaram privados da relação académica com os docentes nas salas de aula, da vertente prática do ensino e, além disso, da rede de assistência fornecida pelos serviços de ação social das Instituições de Ensino Superior, o que agravou drasticamente as desigualdades socioeconómicas estruturalmente existentes no seio da comunidade estudantil.

Passados praticamente doze meses do início desta tempestade, é evidente o transtorno que o ensino digital provocou nas nossas vidas. A digitalização forçada testou a resiliência de estudantes e professores, ameaçando a relação docente-discente, impedindo a formação plena aos colegas que não tinham as condições necessárias nas suas residências para acompanhar o ensino digital e incentivando um quadro coletivo bastante alarmante no que toca à sua saúde mental.


No caso da Academia de Coimbra, podemos afirmar que esse teste de resiliência foi passado – embora com as dificuldades extremas que apontei – pela dedicação e responsabilidade dos estudantes, professores e corpos dirigentes de toda a nossa instituição, capazes de uma adaptação célere, tentando ao máximo evitar perdas provocadas pela mudança repentina e assinalando a necessidade de voltarmos a repor a normalidade para mitigar ao máximo as perdas na formação e no bem-estar de todos os indivíduos que constituem a comunidade académica coimbrã.

É com este mote que devemos encarar o futuro próximo. A necessidade de voltarmos ao normal (não ao novo normal, mas sim ao antigo normal, aquele que salvaguarda a máxima justiça e equidade no acesso ao ensino superior) deve ser encarada como urgente. Se é certo que o ensino superior deve estar aberto a inserção de novos instrumentos digitais no seu quotidiano pedagógico, não é menos certo que o núcleo duro da atividade letiva se deve centrar na sala de aula, onde estudantes e professores têm oportunidade de fomentar o ensino prático, baseado na experimentação, na solução de problemas e no debate intenso entre os intervenientes académicos. São estas as características de uma verdadeira academia e que nunca serão substituíveis por um ensino à distância incapaz de estimular as fundamentais relações interpessoais entre os intervenientes no ensino-aprendizagem. E será, certamente, desejo de todos nós que este possa voltar rapidamente.


Presidente da Direção Geral da Associação Académica de Coimbra