Histórias do Meu Tempo



Fernando Martinho vivia numa república de estudantes, que era alvo de várias rusgas noturnas por parte da PIDE, com o intuito de encontrarem jornais e livros ilegais, que embora estivessem na república, nunca foram encontrados. Vivia-se um clima de desconfiança e eram seguidos para todos os lados. Mais tarde foi preso mais uns colegas que viviam com ele, pois não queriam combater na Guerra colonial.

Enquanto esteve preso e sujeito a interrogatórios viveu dias muito complicados. Os interrogatórios prolongavam-se durante toda a noite e enquanto não estava a ser interrogado, estava preso em Aljube, uma prisão sem qualquer tipo de condições mínimas de higiene. Muitos dos seus companheiros sofreram perturbações mentais e delírios devido ao isolamento máximo a que estavam sujeitos e a todas as condições péssimas em que viviam. A prisão de Aljube, hoje em dia um museu, era a pior prisão em termos de condições sanitárias, a situação era tão grave que o próprio regime decidiu fechá-la quando uns deputados ingleses vieram a Portugal devido a uma denúncia de condições precárias.

Como não havia provas para o incriminar a si e aos seus colegas foram libertados, contudo, devido ao tempo que estiveram presos perderam as bolsas de estudo, e chumbaram o ano, sendo a única opção de alguns dos seus companheiros juntar-se ao exército e ir combater para a Guerra Colonial. Anos mais tarde, voltou a ser preso quando ia visitar a família. A PIDE, que o andava a seguir, cercou-o e levou-o preso sem qualquer razão ou justificação, voltando depois a ser libertado.

Tirou o seu curso de medicina e trabalhou como médico ainda antes do 25 de Abril. Naquela altura não havia carreiras médicas como hoje em dia, não havia quase nenhuns especialistas, as enfermeiras eram sobretudo freiras que o faziam por voluntariado, não tendo na maioria das vezes nenhum curso específico nem nenhuma formação. Já quem nós conhecemos como assistentes operacionais, eram chamados de serventes, e não tinham qualquer tipo de direitos. Os sindicatos da altura não tinham nenhum poder, pois o governo controlava-os, não eram permitidas greves e quem as iniciava era perseguido. Na altura era muito frequente o assédio sexual no trabalho, as figuras mais poderosas desrespeitavam todas as trabalhadoras do sexo feminino, objetificando-as.


As condições de saúde dos hospitais eram péssimas. Quem ia aos hospitais eram os doentes mais pobres, quem tinha dinheiro recorria apenas às clínicas privadas. Nos hospitais os doentes apenas não pagavam se tivessem um papel da junta de freguesia que os considerava mendigos.


O senhor Martinho partilhou que nunca vira hospitais em tão mau estado, nem mesmo quando fora a África, os nossos hospitais não tinham condições de segurança e de higiene, sendo bastante comum haver ratos a passar por cima dos pacientes. Depois do 25 de Abril as condições dos hospitais melhoram substancialmente, sendo criado posteriormente o Serviço Nacional de Saúde que assegurava cuidados a toda a população de forma completamente gratuita.

Quando se deu o 25 de Abril estava a dormir e um colega ligou-lhe. Já sabia de antemão que a revolução iria acontecer, apenas não tinha conhecimento de quando se daria. Um dos capitães havia estado com ele na república e pediu-lhe uns dias antes o carro emprestado e explicou-lhe tudo o que iria acontecer.




O papel das coletividades

O amor à liberdade foi herança do meu pai revolucionário do 5 de Outubro em Coimbra e em Condeixa. Foi a marca de água herdada por toda a família.

Ao chegar a Coimbra, em 1966, já com a família constituída, desejoso de atividades culturais e recreativas fui parar ao Ateneu de Coimbra. Posso considerar ter sido um dos mais importantes polos de ensino que frequentei na vida.

Na coletividade encontrei uma secção de teatro com provas dadas no movimento amador. Fui ator em várias peças, aprendi a colocar a voz, a desemperrar o gesto e a sentir o palco com vida e sentimentos próprios.

O Ateneu criado por operários progressistas tinha uma direção cultural muito afirmativa. Ali assisti a colóquios e conferências de intelectuais resistentes numa dinâmica de verdade e de rigor científico claramente de pertença antifascista. Por lá passaram nomes como Mário Sacramento, Alexandre Babo, Arquimedes da Silva Santos, Mário Castrim, Deniz Jacinto, Agostinho da Silva, Joaquim Namorado, Mário Vilaça, Correia da Fonseca, Alberto Vilaça, Luís de Albuquerque, Rui Clímaco, Sérgio Ribeiro e tantos, tantos outros.

No mundo da canção, em tempo de baladas e não só, lá vinha Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Padre Fanhais, Manuel Freire entre muitos. Claro, a vigiar estas realizações estavam agentes da PIDE.

Já nos anos 70, um grupo de sócios, de que eu fazia parte, iniciou a atividade de fantoches de luva e apresentava espetáculos na sede, em coletividades de recreio, em fábricas e em imensas escolas primárias. Onde era possível, colhíamos desenhos e redações que as crianças na sua imaginação produziam nas aulas nos dias seguintes. Foi um espólio que arrecadámos.

É no Ateneu de Coimbra que a 26 de Abril de 1974 o Movimento Democrático de Coimbra é autorizado a instalar o seu centro logístico para garantir a segurança dos manifestantes no cerco à sede da PIDE e a operacionalidade da rádio e da televisão em Coimbra.



O dia 25 de Abril de 1974

Estava em gozo de férias, nesse Abril.

Para mim dava-me gozo fruir Coimbra na Primavera, livre das minhas funções profissionais.

Dormia eu nessa manhã. A Aida entrou no quarto acordou-me e disse-me que havia um movimento militar em Lisboa. Meio estremunhado respondi: