O Consórcio de Investigação Internacional do Burnout Parental: O IIBP

Atualizado: Fev 8

O burnout parental é uma condição de saúde mental caracterizada por um estado de exaustão e um sentimento de saturação relacionados com o papel parental, com perda de prazer em estar com os filhos e distanciamento emocional destes, contrastando estes sentimentos e estados com os que existiam antes.



O burnout parental é uma condição de saúde mental caracterizada por um estado de exaustão e um sentimento de saturação relacionados com o papel parental, com perda de prazer em estar com os filhos e distanciamento emocional destes, contrastando estes sentimentos e estados com os que existiam antes. Surge quando há um «desequilíbrio entre as “exigências” que se colocam ao exercício do papel parental e os “recursos” que coexistem para lidar com elas ((Roskam, Brianda, & Mikolajczak, 2018).


Com o objetivo de investigar esta condição foi constituído um consórcio de 40 países (IIBP: Internacional Investigation of Parental Burnout) liderado pela Universidade de Louvain, na Bélgica (https://www.burnoutparental.com/international-consortium). Em Portugal fazem parte deste consórcio as Universidades de Coimbra e do Porto. Em Coimbra é coordenado por Maria Filomena Gaspar, professora associada da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação e investigadora do Centro de Estudos Sociais, também da Universidade de Coimbra, e do Laboratório Colaborativo ProChild.


Este consórcio conduziu dois grandes estudos: um em 2018 e outro em 2020 (durante o confinamento na crise pandémica; através de um questionário online aplicado durante o período de confinamento, entre 30 de abril e 20 de maio).


Em Portugal da amostra do Estudo 1 fizeram parte 406 sujeitos (50.5% dos quais mães), e do Estudo 2 589 (80.8% mães) com pelo menos um(a) filho(a) a viver em casa.

De acordo com os resultados, quer do Estudo 1, quer do Estudo 2, as mães relatam mais burnout que os pais, o que se explica pelo facto de em Portugal uma grande maioria continuar a ser a principal cuidadora das crianças e responsável pelas tarefas domésticas. Entre os dois momentos os pais homens aumentaram mais que as mães (embora ambos tenham aumentado) os níveis de stresse relacionados com a exaustão, enquanto nas mães houve um decréscimo mais acentuado que nos pais nos níveis de stresse relacionados com a saturação com o papel parental (embora ambos tenham reduzido).


O aumento da exaustão durante o confinamento pode explicar-se pela circunscrição à habitação, o encerramento das creches, jardins-de-infância e escolas, o teletrabalho e o isolamento social. 19% dos pais e 31% das mães, no Estudo 2, afirmaram que o confinamento à habitação e o isolamento social causaram um aumento dos sintomas de burnout parental, com impacto negativo nos seus comportamentos em relação aos filhos, relatando mais práticas educativas negativas, como, por exemplo, dar palmadas e dizer coisas aos filhos que depois se arrependem, e de desligamento - por exemplo, não dar atenção e prestar cuidados quando acham que o deviam fazer. No sentido oposto, 27% das mães e 19% dos pais encararam esta fase como uma oportunidade para aumentar a qualidade da sua parentalidade e da relação com os filhos, acompanhada de redução do burnout relacionado com o exercício da parentalidade.


Entre os maiores desafios enfrentados pelos investigadores na recolha da amostra no Estudo 2 encontram-se a dificuldade de motivar e envolver mães e pais que não têm literacia digital para responder a um questionário numa plataforma, o que resultou numa amostra com escolaridade superior e não representativa da população portuguesa. Outra desafio foi a dificuldade de obter respostas de homens, com as mães a aderirem mais, o que já é habitual em estudos sobre a parentalidade.


Os alunos da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação podem participar em futuros estudos no âmbito deste Consórcio através da inscrição na unidade curricular de “projeto de investigação” ao nível dos cursos do 2º ciclo, como disciplina de opção. Os dos 1º ciclos podem colaborar na organização de congressos e outros iniciativas que venham a decorrer.